terça-feira, 23 de setembro de 2008

Let´s talk about sex!

Tereza é uruguaia e como tantas outras pessoas provenientes da América do Sul veio para a Irlanda para aprender inglês, trabalhar, viajar e viver uma nova experiência. Quando decidiu mudar de país, estava cansada de sua vida e, principalmente, estava cansada dela mesma. O mesmo namoro, a perspectiva de uma vida real cheia de preocupações e a conta da Telemar para pagar (ou o equivalente de Montevidéu). Enfim, decidiu ficar um ano longe de tudo e de todos e aproveitar um pouco a vida.

Mas para ela não funcionava como para suas novas amigas. Enquanto elas perdiam a conta de quantos italianos, franceses, irlandeses, poloneses, brasileiros e até alguns uruguaios já tinham ficado, transado, saído, se relacionado por algumas semanas, ela estava lá, atrás no marcador. Nos cinco meses em que estava na Irlanda, somente um uruguaio, um argentino e um brasileiro souberam como é provar um beijo seu.

Para ela essas coisas não funcionavam assim, por mais que não gostasse muito disso. Tinha vontade de despirocar, pintar e bordar, dar pirueta, fazer tudo que sempre se privara. Queria enfim curtir a vida, como todas suas novas amigas faziam. Havia perdido muito tempo de sua vida engatando um relacionamento atrás do outro, nunca reservando um tempo para si mesma, para saber o que sente, o que gosta, o que desgosta. Sem saber como é, de fato, estar e aproveitar a vida de solteira.

Já tinha aceitado a situação. Conformada de que as coisas com ela eram diferente, estava aceitando o fato de não ser aquele tipo de pessoa e seguiu assim, tranqüila e satisfeita com a vida e aberta para o que viesse, mesmo se fosse um novo amor que substituísse o antigo (ou presente).

Mas ela tinha que dar um jeito. As coisas precisavam acontecer para ela. Então no dia 14 de junho tomou uma decisão. Não, nada de sair e dar para o primeiro que aparecesse. Isso não era coisa dela e até estava se sentindo bem por ser do jeito que era. Dias atrás havia perdido a possibilidade de aproveitar o show do Radiohead que havia aberto sua turnê européia tocando no Malahaide, parque irlandês que fica menos de meia hora de sua casa indo de Dart (um trêm urbano).

Mas não. Aquilo não podia ficar assim. Conferiu as datas das apresentações e lá estava. Dia 1º de julho, Westpark, Amsterdan, Holanda. Seria perfeito, era em uma terça-feira. Pediria folga em seu trabalho part-time como garçonete em um café, partiria no sábado de manhã, aproveitaria a cidade, ainda assistiria ao show e retornaria na quarta-feira pela manhã.

Foram 70 euros do ingresso, mais 150 de passagem ida e volta, mais uns 200 euros para gastar durante seus quatro dias holandeses. Era o equivalente a duas semanas de trabalho, mas para ela valia a pena. Trabalhava justamente para ocasiões como esta e um show do Radiohead era, para ela, seu lugar ideal no planeta, ainda mais em um parque de Amsterdã. Seria perfeito.

Aguardou ansiosamente. Faria toda a jornada sozinha, nenhuma amiga se prontificou a gastar essa quantia por um show do Radiohead. Apesar de a Holanda ser bem atrativa, esperavam ocasiões e oportunidades melhores, com promoções da Ryanair e tudo mais. Mas Tereza não se importou. Na verdade até gostou disso. Seria uma experiência nova e gostou do fato de se sentir tão independente.

Bom, enfim o grande dia chegou. Malas prontas. Dublin Airport. Aeroporto de Amsterdã Schiphol. Seguiu o protocolo. Queria aproveitar ao máximo. Visitou todos os museus que pôde. O Rijksmuseum, o Museu de Van Gogh, o Museu da Casa de Rembrandt, o novo Hermitage Amsterdam, o Museu de Arte Moderna de Stedelijk e a Casa de Anne Frank. Adorou os canais, os prédios históricos, o clima, as pessoas loiras que contrastavam com sua pele morena e olhos castanhos.

Estava curiosa sobre a famosa noite de Amsterdã, com os famosos coffee shop. Durante os quatro dias freqüentou muitos, até chegou a experimentar algumas fumaças, alguns bolos com coisas estranhas com seus amigos esporádicos, mas não lidava muito bem com suas alterações de sentido. Entrava em umas paranóias que não deixavam confortável. Em um de seus passeios até conheceu um italiano que achou muito interessante.

Porém, na maioria de sua vida noturna, vagava pelas ruas, se deparando com todo tipo de coisa, carregando somente a embriagues devido ao seu novo gosto por apreciar uma frasqueira de whiskey. Passeou inclusive pelo famoso “Red Light District”, com seus inúmeros sex shops, casas de prostituição. Chegou a entrar em um sex shop, mas ficou com receio de entrar no museu do sexo, algum show erótico ou coisa que o valha. Ficou um pouco assustada pelo fato de, assim como em sua adolescência, se atrair por algumas das mulheres que se exibiam nas vitrines.

Os três dias até a noite do show passaram rápido. Tinha até esquecido um pouco do seu lugar preferido no planeta. Em sua cabeça só a excitação de tudo novo que estava vivendo e uma incansável saudade de muita coisa que estava lá longe, no Uruguai. Uma sensação estranha de que não queria ter sentimentos. Praticava sua frieza, sabia racionalmente (e talvez sentimentalmente) que não queria a mesma vida de namoro do passado. Adorava estar e ser livre como nunca antes se sentiu. Mas a saudade daquele alguém uruguaio, com cabelo de argentino, não saia de lá. “Que droga!”.

No Westpark, chegou bem antes da abertura dos portões, mas a fila já estava formada. Posicionou-se tranqüilamente no final e não precisou esperar quinze minutos para sentir seu ombro ser tocado. Era o italiano que havia conhecido em um coffee shop dias antes. Depois de se reapresentarem, ele a convidou para se juntar a um casal de amigos pouco a frente na fila.

No dia em que conversaram pela primeira vez, nem comentaram sobre o show do Radiohead. Portanto, se fosse mais boba, Tereza acreditaria que seria o destino. Na verdade ficou espantada com a coincidência, e sentiu algo diferente que a percorria a espinha. Não era um tipico galã. De marca clássica italiana somente o nariz grande, mas nada do 1m90 ou da barba por fazer ou dos olhos verdes.

Gostou mesmo da companhia. Carinhoso, atencioso, parecia gostar dela, mas não ficava dando encima dela (diferentemente de todo italiano que já havia conhecido). Sempre se mantinha próximo, durante o show a privilegiava com o melhor lugar, a protegia dos fãs mais empolgados, sabia boa parte das musicas de cór.

E finalmente enquanto as caixas de som soavam “just 'cause you feel it doesn't mean it’s there”, um beijo naturalmente aconteceu. Nada muito intenso, somente um leve encontro de lábios. E entre uma música e outra, beijos e mais beijos. Tudo era muito romântico. O primeiro encontro perfeito em seu lugar perfeito.

Sua cabeça de uruguaia boba pensou que talvez poderia ser um novo amor. Pensou em como poderia manter um relacionamento com a distância com ele. Mas logo se lembrou de que não acreditava em amor a distância e seria uma substituição um tanto quanto que indevida. Portanto, com todas as certezas de incerteza futura, ela só queria saber de aproveitar o momento.

One night stand. Nunca tinha feito isso na vida. Mas acabado o show, com beijos e caricias esquentando. Com os hormônios em polvorosa, um convite para uma visita ao apartamento do amigo que estava hospedando o italiano foi aceito, mas não antes de uma certa hesitação.

Chegando a um flat muito charmoso em uma viela de Amsterdã, os anfitriões se dirigiram a um dos quartos enquanto os dois recém-apaixonados ficaram na sala. Duas taças de vinho depois, o fogo parecia incontrolável. Então chegou o momento de ir para o quarto. Nisso um filme passou na cabeça de Tereza. Nunca tinha feito isso na vida, mas só queria aproveitar o momento.

Não se permitiu a lembrar da última vez que fez sexo, pois surgiriam em sua cabeça uma má experiência de um sexo sem fim (literalmente) com gosto amargo de despedida. Tudo o que não queria no momento era sentimento. Queria só a carne. O gosto de suor com o hálito de vinho rosé.

Parou de pensar. Se entregou. Mão nisso, mão naquilo, pouca ação de boca, camisinha, beijos, papai-e-mamãe, tentativa frustrada de outra posição, papai-e-mamãe. Fim. Ele vai para o banheiro se livrar dos resíduos, ela permanece sozinha na cama. Não demorou dois segundos, correu para vestir sua roupa. Se sentia mal nua daquele jeito. Não sentia arrependimento, mas não sentia nenhuma satisfação. Não tinha sido ruim. Se não se engana, ela talvez até tenha chegado a gozar. Não tinha muita certeza. O italiano foi ótimo, se não conhecia os seus movimentos e do que gostava ou desgostava, ele foi carinhoso. Foi tão carinhoso como uma pessoa que faz sexo com uma desconhecida pode ser.

Quando o italiano voltou, Tereza já estava quase que completamente vestida. O sutiã ainda estava jogado no chão, o que a deixou com uma tremenda vergonha, e sentia muito frio. Não podia ir embora. Não saberia como sair dali e confiava na promessa de chegar ao aeroporto na manhã seguinte com uma carona dessa pessoa que agora dividia aquela cama de casal.

Nem o corpo insistente do italiano a esquentava agora. Sentia muito frio. Só queria virar de lado e dormir. Queria sonhar. Queria ir embora. Queria estar no frio do inverno uruguaio. Só queria voltar para a cama de solteiro que costumava dividir quando estava em casa e se sentia quente.

2 comentários:

rafafa disse...

http://averdadeportrasdefelipefloresti.blogspot.com

Débora disse...

podia muito ter mais, hein?
ficou bom...se não quer falar da Irlanda...fale disso aí, esse papo todo de sexo é legal!
eu gosto dos seus textos ficção!
beijos!